Monday, November 20, 2017

Consiência Negra no Brasil - Relato de Racismo Escancarado

RACISMO VELADO NO AMBIENTE RELIGIOSO
A LÓGICA RACISTA DE FORMAR CASAIS
Dentre milhares de micro e macro agressões que vivenciei de um sistema de racismo estruturado no Brasil eu irei relatar um deles:
Nos últimos anos que morei no Brasil (anos esses amargos onde eu comi o pão que o diabo amassou onde a maioria das pessoas que convivi acham que eu não merecia respeito por causa da minha pele e aparência), tentava buscar mais espiritualidade e frequentava um centro religioso. E como em toda boa igreja as pessoas tentam formar pares entre os solteiros. Casar os solteiros entre si.
Faço uma pausa para apresentar o estereótipo de quem tem o racismo instalado na mente e na alma:
Homem branco, mais de 50 anos, jornalista por décadas, produtor de conteúdo pra televisão e outros meios de comunicação, agressor de mulher, que fazia comentários racistas inclusive sobre a aparência física cabocla de forma bastante agressiva dos fundadores caboclos da sua própria religião. Nota-se que é um Brasil que é despreparado pra aceitar a raça do seu próprio povo. Casado com mulher branca, de família descendente alemã, confirmando melhor ainda seu único padrão de beleza e estética como branco, nada além de branco, como todo brasileiro racista. Anos de trabalho, formação acadêmica ainda não foram suficientes para ele aprender a enxergar e muito menos admirar a beleza negra, cabocla ou parda. Mente encarcerada. Mente parada no tempo. No tempo da escravidão.
Voltando ao meu caso.
A única qualificação para os pretendentes que ele achava serem ótimos companheiros pra mim tinham um perfil em comum. Negros, sem estudo, pobres, moradores de periferia. Eu não tenho nada contra a condição financeira de ninguém, muito menos contra a cor de ninguém, mas vamos analisar o raciocínio de tal "letrado" jornalista:
Eu, que cresci num bairro nobre de gente maioria branca, estudei em escolas caras de gente maioria branca, entrei em algumas faculdades, embora não tenha concluído, mas com uma bagagem de vivência acadêmica muito forte devido ao meu gosto pelos estudos, atleta de jiu jitsu competidora, morei nas maiores cidades brasileiras, Rio e São Paulo, na Europa, falo três idiomas, trabalhava poucas horas do meu dia, poucos dias na semana como professora de matemática particular, ganhando algumas vezes até o dobro do que muita gente que tinha um diploma superior.
Uma vez ouvi esse próprio jornalista se desfazendo de sua companheira culturalmente que apesar de branca veio de familia de subúrbio, e não teve a mesma bagagem intelectual nem o mesmo sucesso profissional que ele que ele, que cresceu na beira da praia. Ele citou a expressão CHOQUE CULTURAL.
Conclusão: O choque cultural que ele mencionou somente funcionava pra ele. O branco, bem sucedido, famoso, letrado, morador da praia. Pra mim o choque cultural que o mesmo citava não funcionava, o que funcionava era a segregação mental instalada na cabeça dele de pensar que teriam que ficar juntas pelo TOM DE PELE. Ou ate mesmo ausência de "beleza", no caso beleza pra racista é ser branco.
Então eu, que cresci na beira da praia como ele, tal jornalista, teria que me mudar pra uma casinha simples de aluguel na periferia e me casar com um homem negro pobre, que talvez ganhasse a metade do que eu ganhava, que não fala os idiomas que eu falo, que não havia visitado nenhum dos países que eu havia conhecido. Era apenas o tom de pele que importava no seu critério de querer casar aqueles que ele tem a cara de pau de chamar de irmãos. O choque cultural na linha de raciocínio dele funcionava pra ele humilhar a esposa, mas não pra mim. Devido ao meu tom de pele, eu merecia passar perrengue, morar de aluguel e me casar com um homem negro, pobre e sem estudo superior que não tem um bom emprego.
Seguindo mais adiante na linha de raciocínio desse misericordioso racismo instalado na mentalidade do brasileiro, em outras mãos, os homens mais bem sucedidos eram apresentados somente a pretendentes brancas, não importando se elas tinham ou não nível cultural, poderiam até ser analfabetas mas eram brancas e mereciam sempre ser apresentadas para os homens mais bem sucedidos, estavam destinadas a morar na beira da praia em condomínios luxuosos, viajar pra fora do país algumas vezes ao ano, não precisar pagar aluguel nem se preocupar com contas e perrengues. A branquitude no Brasil te livra do destino da pobreza. Eu já estava destinada a uma vida difícil na periferia, não merecia um homem branco bem sucedido, ou melhor, por que um homem branco bem sucedido ia querer formar uma família com uma cabocla "feia" (no entendimento de beleza dele) como eu?
Boa aparência e beleza significam pele clara no país que tem mais da metade da população negra.
Racismo Brasileiro a gente vê por todos os lados.
Como fica a cabeça dessas pessoas ao me ver muito bem casada, morando fora do país, com um homem doutor branco, descendente de irlandês, bem sucedido, inteligente, estudioso, trabalhador, com um emprego de prestígio? Esse perfil de homem não era pra mim, segundo a lógica racista brasileira.
Se você leu até aqui, meu muito obrigada pela atenção.

Comenta aí amigo, quero conhecer sua opnião.