Saturday, February 4, 2017

Colégio Objeto de Escárnio Porto Velho Rôndonia

Narrativa da minha experiência de ter estuado 4 anos no colégio "Objeto de Escárnio" de Porto Velho Rôndonia.

Morei 4 anos em Rondônia na infância. Não irei falar da desumanização, das agressões físicas, psicológicas, verbais, apelidos pejorativos, humilhações, exclusões, irei contar uma historia muito mais atual. Crescer na burguesia sendo preta foi complicado, fiquei na linha ataque mais próxima, por eu ter tido pais brancos e bem sucedidos, aquela gente podia me dizer desaforos todo dia na minha cara. Foi difícil e traumático estudar em escola cara, eu não tinha a cor, nem a aparência obrigatória padrão.

Irei falar de um fato atual, o "grupo", 25 anos depois se reencontrou, pela foto de formatura, todos que tinham meia dúzia adicionados em seus faceboques foram marcando todos na foto e isso resultou num grupão de whatsapp. Boom!!! Explosão de memórias! Aquela mesma turma que estudou junta desde a quinta até a oitava série. Éramos uma família novamente! Que alegria!

Todos os participantes "do grupo" começaram a resgatar memórias, começaram a relembrar coisas maravilhosas da infância, e entrada da adolêscencia. Momento de passagem, mudança de fases de vida nem uma criança nem um adulto, um adolescente. Momento de aceitação de si mesmo, momento de construção do amor próprio e da auto estima. Momento da construção de valores(?) e caráter.

Voltando ao tal "grupo de whatsapp's", lembranças de uma infância maravilhosa, finais de semana e piscinas que somente as brancas eram convidadas, eu jamais havia sido convidada, as raras vezes que lembro de alguma lembrança de inclusão era quando faltava alguém para completar o time de voley quando tínhamos que jogar contra outros times. A maioria das vezes era reserva mesmo. E todos relembrando seus melhores anos brancos, ricos e felizes em suas casas com piscinas recebendo amigos brancos nos fins de semana.

Minha vez, eu esperei todos falarem, eu precisava fazer minha recordação, foi difícil relembrar mas eu fui fiel a mim mesma e tudo que havia acontecido. Falei que tinha sido a pior fase da minha vida. A fase mais traumática. Uma das piores, e parte do grupo reagiu com incomodo tentando me silenciar (~ hj vejo o quão a (IN) justiça brasileira forma advogados justos, e brancos, e super justos e super brancos ~). O papo era o seguinte : "~ ~ A Aline não precisa falar isso pra gente aqui no grupo! Ela devia falar direto "pra pessoa" ~ ~ , não precisamos ficar ouvindo isso..." tinha também " ~ ~ Aline?Bullying? Preconceito? Eu era super desligada, nunca reparei isso! ~ ~"

Eu insistia em repartir minhas memórias, eram duras de ouvir para alguns, tentaram me silenciar... Por mensagem privada fora do grupo, secretamente aos olhos dos outros "do Grupo", alguns encorajando: "Eu lembro de tudo! Fala mesmo! Você tem o direito de falar!!", "Vai dizer que aquilo não era racismo?"... Até que heroicamente uma grande professora de direito, que era a líder da turma, sempre a frente de todos com um todo, ouvida por todos, branca, rica, admirada e amada por todos, resolveu falar no grupo que eu tinha direito de falar minhas lembranças e que SIM eu sofria muito preconceito e que ela queria fazer algo pois sentia o meu sofrimento mas não tinha maturidade suficiente para entender o que estava acontecendo ( nem eu! ).

O discurso estava lindo, até que uma que veio interver, melhor amiga dessa primeira advogada de defesa, advogada também relembrou também ter testemunhado cenas de agressão psicológica, meu sofrimento, também teve compaixão e a falta de maturidade para me auxiliar com aquele constragimento que me fazia sofrer todos os dias, elas tomavam banho de piscina na cada de um dos agressores, estava tudo perfeito até que veio a bosta, depois de 25 anos, adulta, madura, séria e sensata : "As mais bonitas não sofriam isso, eu lembro que a Aline sofria".

Eu não era/não sou considerada bonita pelo povo do país do país onde nasci, país pobre, ignorante e submundo da humanidade, isso é fato e no Brasil continuo não sendo, mas como é construído o mental preferencial do brasil? Isso era jogado na minha cara inclusive todos os dias, inclusive várias vezes ao dia, significava para alguns que eu não merecia respeito, que atraso, que selvageria, que desumanidade, eu merecia ser humilhada em na frente de todos e excluída dos banhos de piscina dos finais de semana e com certezas vários PROGRAMAS que eu não era bonita para participar. Vida que segue, segue o baile. E depois de 25 anos ainda a tentativa de me calar, me silenciar. Salve "o grupo"...

Saí desse grupo a muito tempo claro, lembrar aquilo me faz mal, me machuca de novo, nada muda o passado, aquela família tão unida, tão justa, que distribui amor pelas fotos do facebook, parece que não conseguir se reencontrar de fato novamente. Do fundo do coração só desejo luz na consciência de algumas pessoas para que desfaçam as amarras mentais impostas pelo colonizador ou tem uma eternidade de cegueira e alienação. E mesmo que tenham o chamado "gosto", aprendam a respeitar o próximo como ser humano. Isso seria o mínimo que uma sociedade civilizada tem que ter.


{ Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência, e quem quiser que conte sua versão... }